segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O Bologna ainda deixa saudade .


Bologna

        Li  a reportagem  com um saudosismo inexplicável . Até mesmo por que frequentei muito pouco o Bologna antigo .  Eu talvez  tenha me  nutrido   pelo idealismo de recuperar   a memória da  cidade  .
A iniciativa destes empresários  me fez pensar que  finalmente resolvemos preservar nossa memória e tradição , bem  na contramão das evidências que colho no dia-a-dia  com  empreendimentos  que cada dia tem vida mais curta , abrindo e  fechando  com a rapidez impressionante da antropofagia digital paulistana  em  velocidade de banda larga  4G  .
         Enchi meu coração de esperanças e fui almoçar no Bologna em pleno sábado de  carnaval.
 Logo ao chegar  me decepcionei com as opções  arquitetônicas . O novo Bologna está mais para um exemplar legítimo da arquitetura de panificadora ( eu brinco comigo mesmo que , se fosse aluno de arquitetura,  meu TCC seria sobre arquitetura de padaria ),  que para resgate de qualquer tradição.  A referência mais evidente a arquitetura dos anos 50 é o espelho jateado com a data da abertura do Bologna antigo e um friso dourado ondulado e largo.
       Os garçons esbaforidos corriam  de um lado para o outro parecendo  não acreditar no fluxo constante de saudosistas  como eu .  Sentamos em uma mesa vaga , ainda suja , e pedimos  um chope,  secos para  acompanhá-lo com  uma empada quebradiça ou  um camarão empanado  levemente apimentado .
      Encarei a segunda decepção da tarde :
      -  Senhor , não servimos bebidas alcoólicas .
      -  Então  uma coca zero, amigo .
        Ainda estava esperançoso .  Levantei da mesa e fui dar uma olhada nos balcões . Para meu alívio , logo avistei o balcão de salgados e uma bandeja cheia de coxinhas-creme e  camarões empanados . Lamentei mais uma vez a falta da minha cerveja .
       O sistema de pedidos é bem atrapalhado , gente das mesas , misturadas a passantes , cozinheiros , atendentes , garçons ,  gerentes . Nem mesmo os uniformes deram  conta de ajeitar as informações na minha cabeça . Penso que com o tempo  algum arranjo  novo deverá aparecer . Ao final  tudo dá certo . Mas infelizmente  , este fim de semana ainda era um começo , e um começo bem atrapalhado .
        Continuei  meu tour pelas vitrines , vazias , como se sentissem um movimento acima do esperado . Poucas maioneses e saladas russas com jeitnao de antigamente, nenhuma massa , alguns frangos girando nos fornos gigantescos  atrás do balcão e um abnho maria com a farofa e a bata que acompnha os galetos . Nada muito apetitoso,  que me fizesse ter vontade de encher o freezer de casa .
        Voltei ao balcão de salgados com a impressão de  que dia melhores virão . Antes de voltar a mesa  , agarrei uma coragem e enfrentei a fila por umas coxinhas e alguns camarões empanados .
         O garçom finalmente levou o cardápio a mesa . As fotos  em estilo kitsch retrô do cardápio são bem humoradas , mas confesso que eu esperava coisa melhor . Cada um fez o seu pedido  e aguardamos . Finalmente dei a primeira mordida no meu camarão empanado e , por um segundo ,  achei bom ter decidido ir almoçar no Bologna.  A  massa estava crocante , saborosa e os camarões firmes como  esperado.  O salgadinho tinha sabor de saudade.
        Chegaram os pratos que não impressionaram  pela qualidade mas não trouxeram surpresas desagradáveis .  Desagradável foi a  garota de calças cor-de-rosa que amarrou seus  cachorros do lado de fora e deixou os bichinhos latindo e enlouquecendo a clientela por mais de  15 minutos .
        Nós corremos para acabar nossos pratos , enquanto a mal educada cliente  impunha a todos no estabelecimento os latidos de seus cães . Infelizmente civilidade  é uma noção pouco em voga  .  Fiquei torcendo para que os cães  derrubassem as compras dela a caminho de casa .
        Levantamos rapidamente para nos vermos livres dos latidos,  mas paramos no balcão de sorvetes . Minha mãe queria  tomar um “ Cremino de liquore “ , sabor que  lembrava dos tempos de escola . Mas ela e o cliente que estava ao nosso lado  tiveram que se contentar cm um bom sorvete crocante , feito com ingredientes da Fabri e com  uma boa textura de Gelato Italiano.
        Tomamos nossos sorvetes e nos encaminhamos ao caixa para pagar . Ali  a arquitetura de padaria , a origem dos empreendedores e o sistema operacional do novo Bologna se juntaram  e fizeram a síntese da nossa experiência  : O novo Bologna guarda muitas memórias , algumas boas receitas, mas está mais para uma padaria 24 horas que para a minha  vaga lembrança de uma das mais tradicionais rotisserias da cidade .






Bolonha ainda deixa saudades .


Bologna

Li  a reportagem no jornal com um saudosismo inexplicável . Até mesmo por que frequentei muito pouco o Bologna antigo .  Meu saudosismo talvez  tenha sido nutrido   pelo idealismo de recuperar   a memória da  cidade  .
A iniciativa destes empresários de reabrir o Bologna ,  me fez pensar que finalmente resolvemos preservar nossa memória e tradição . Na contramão das evidências que colho no dia-a-dia , uma vez que  os empreendimentos  tem cada dia vida mais curta,  fechando  com a rapidez impressionante da antropofagia digital paulistana  na velocidade  4G  .
Enchi meu coração de esperanças e fui almoçar no Bologna em pleno sábado de  carnaval .
 Logo ao chegar  me decepcionei com as opções  arquitetônicas . O novo Bologna está mais para um exemplar legítimo da arquitetura de panificadora ( eu brinco comigo mesmo que se fosse aluno de arquitetura meu TCC seria sobre arquitetura de padaria ) que para resgate de qualquer tradição . A referência mais evidente a arquitetura dos anos 50 é o espelho jateado com a data da abertura do Bologna antigo .
Os garçons esbaforidos corriam  de um lado para o outro parecendo  não acreditar no fluxo constante de saudosistas  como eu .  Sentamos em uma mesa vaga , ainda suja , e pedimos  um chope,  secos para que pudesse acompanhá-lo com  uma empada quebradiça ou  um camarão empanado  levemente apimentado . 
Encaro a segunda decepção da tarde :
-  Senhor , não servimos bebidas alcoólicas .
-  Então  uma coca zero, amigo .
Ainda estava esperançoso .  Levantei da mesa e fui dar uma olhada nos balcões . Para meu alívio , logo avistei o balcão de salgados e uma bandeja cheia de coxinhas-creme e  camarões empanados . Lamentei mais uma vez a falta da minha cerveja .
O sistema de pedidos é bem atrapalhado , gente das mesas , misturadas a passantes , cozinheiros , atendentes , garçons ,  gerentes . Nem mesmo os uniformes deram  conta de ajeitar as informações na minha cabeça . Penso que com o tempo  algum arranjo  novo deverá aparecer . Ao final  tudo dá certo . Mas infelizmente  , este fim de semana ainda era um começo , e um começo bem atrapalhado .
Continuei  meu tour pelas vitrines , vazias , como se sentissem um movimento acima do esperado . Poucas maioneses e saladas de batata , nenhuma massa , alguns frangos girando nos fornos gigantescos  atrás do balcão . Nada muito apetitoso,  que me fizesse  num impulso ter vontade de encher o freezer de casa .
 Voltei ao balcão de salgados com a impressão de  que dia melhores virão . Antes de voltar a mesa  , agarrei uma coragem e enfrentei a fila por umas coxinhas e alguns camarões empanado .
O garçom levou o cardápio a mesa . As fotos  em estilo kitsch retrô são bem humoradas , mas confesso que eu esperava coisa melhor . Cada um fez o seu pedido  e aguardamos . Finalmente dei a primeira mordida no meu camarão empanado e , por um segundo ,  achei bom ter decidido ir almoçar no Bologna .  A  massa estava crocante , saborosa e os camarões firmes como  esperado  .  O salgadinho tinha sabor de saudade .  
Chegaram os pratos que não impressionaram  pela qualidade mas não trouxeram surpresas desagradáveis .  Desagradável foi a  garota de calças cor de rosa que amarrou seus dois cachorros do lado de fora e deixou os bichinhos latindo e enlouquecendo a clientela por mais de  15 minutos .  
Nós corremos para acabar nossos pratos , enquanto a mal educada cliente  impunha a todos no estabelecimento os latidos de seus cães . Infelizmente civilidade  é uma noção pouco em voga  .  Fiquei torcendo para que os cães  derrubassem as compras dela a caminho de casa .
Levantamos rapidamente para nos vermos livres dos latidos,  mas paramos no balcão de sorvetes . Minha mãe queria  tomar um “ Cremino de liquore “ , sabor que  lembrava dos tempos de escola . Mas ela e o cliente que estava ao nosso lado  tiveram que se contentar cm um bom sorvete crocante , feito com ingredientes da Fabri e uma boa textura de Gelato Italiano.
Tomamos nossos sorvetes e nos encaminhamos ao caixa para pagar .
Ali  a arquitetura de padaria , a origem dos empreendedores e o sistema operacional do novo Bologna se juntaram  e fizeram a síntese da nossa experiência  : O novo Bologna guarda muitas memórias , algumas boas receitas, mas está mais para uma padaria 24 horas que para a minha  vaga lembrança de uma das mais tradicionais rotisserias da cidade .






domingo, 8 de janeiro de 2012

CALDEIRãO SIMBóLICO


Início do  o ano passado  resolvi realizar um antigo sonho . Fazer uma formação como chefe de cozinha . As alternativas estavam a mão . Fiz matrícula em um curso da escola onde ministro aulas de gestão em gastronomia , a Wilma Kowesi . Mesmo com todos os narizes que foram se torcendo quando eu anunciava a minha decisão e  as inúmeras falas  desencorajadoras  do tipo – Mas para que ? Você já sabe cozinhar! -   insisti na    realização deste desejo pessoal . Um pouco da minha teimosia traz alguma vantagem . Uns chamam de persistência  . Gosto da palavra teimosia , não me ofende .
Meu curso e 2011 acabaram  com a certeza que  eu acumulei bastante conhecimento teórico durante minha vida mas  que estou distante de um  cozinheiro profissional . O  desafio continua . Para melhorar minha cozinha terei que trabalhar muito .  Costumo chegar aos bons  resultados por aproximação .  Não sou do tipo que sai fazendo perfeito da primeira vez , mas também não sou incauto . Antes de fazer me preparo . Leio , pesquiso um pouco . Depois começo a fazer , estudo mais um pouco, disfruto minha experiência e escuto minhas reações . Enfim a analiso o resultado . Assim  ,   me engajo num processo de aperfeiçoamento e melhoria até  chegar a um resultado satisfatório para mim .  É no processo que misturo minhas emoções , o sal deste banquete .
A Chefe Mara Salles nos conduziu pela cozinha  brasileira .Suas origens , preparos . Diferentes farinhas ,  produtores locais , mangaritos e farinhas ovinha . A Mandioca na veia , a comida rusticamente sofisticada , o leite do coco extraído nas coxas ,  dendês e azeites , pimentas de cheiro e de pegar . Em uma de suas aulas  , ela chegou com um caldeirão de barro  lacrado com uma coisa branca que não consegui identificar inicialmente . Os caldeirões são uma paixão antiga . Me lembram caldos restauradores , comida para muitos , comida de juntar gente .
Não demorou muito para desvendarmos o mistério . Rapidamente aprendemos como montar o Barreado , comida tradicional do sul , origem brasileira-açoriana . Eram belos pedaços de coxão duro vermelhos de frescor , que ela cortou em nacos grandes e iguais e arrumou em outro caldeirão de barro ( feito lá no Espírito Santo ) e forrado com fina fatias de bacon para que a carne não grudasse. Muito tempero , um pouco de vinagre e óleo e um pouco de água para formar o líquido do cozimento . Era isso . Bem ,  quase isso . Faltava fazer a massa de farinha de mandioca e água que foi usada para lacrar a panela , hermeticamente , antes de colocá-la no fogo baixo por 16 horas para cozinhar .  No dia da nossa aula o caldeirão fechado trazia o barreado pronto .
Não  acredito em programa  de culinária na TV  quando as coisas aparecem prontas sem mostrar o processo . Logo eu , que professo que as coisas acontecem no processo de aperfeiçoamento , perder o processo ? Não posso , não podia e continuarei não aceitando suprimir  o processo .
Pois bem ,   a Mara abriu o caldeirão e serviu um pedaço de carne desfiando , regada com um caldo perfumado e um pouco de farinha de copioba , da boa . Estava uma delícia o barreado que ela trouxe pronto  . Mas saí da aula inconformado  . Precisava  passar pelo processo .
Fiquei matutando um tempo , não conseguia pensar em ficar 16 horas controlando um caldeirão fechado sem ver ou sentir o cheiro da comida  cozinhando  lá dentro . Primeiro por que sou curioso demais , depois porque no dia a dia , 16 horas em casa , só se estiver doente . Quando faria meu barreado ? 



barreado


O caldeirão , a história , a aula , meu ano , tudo podia estar resumido em fazer o  meu próprio Barreado . Uma síntese de 2011, um teste de meus conhecimentos apreendidos , a possibilidade de vivenciar o processo , ter a paciência e o cuidado  de  vigiar uma panela e um fogo por 16 horas .
De repente nada me pareceu mais simbólico que fazer isso como  a minha comida da passagem do ano . Mas eu não estaria só e todos teriam que partilhar  meu Barreado comigo . Não perguntei nem expliquei , inclui o Barreado no cardápio da praia , comprei a panela , pedi ao Wladi que comprasse os ingredientes  e  impingi minha simbologia a todos que foram comemorar a passagem do ano comigo .
Fazer o barreado em Ubatuba foi uma obra de muitas mãos , a turma colaborou muito com a montagem do caldeirão e o Barreado ganhou novas nuances , palpites , temperos . Deixou de ser só meu e passou a ser de todos . Insisti e coloquei o cominho ,  fiz a massa para lacrar  e , dia 31 as oito da tarde , quando a claridade estava acabando coloquei o barreado no fogo sob uma chapa de ferro,  com receio de não conseguir controlar o fogo e assim colocar tudo a perder .
Controlei o fogo por 16 horas . Durante a madrugada acordei com sede ainda meio embriagado  e me lembrei de verificar o  caldeirão . Tudo correu bem. A princípio parecia que a panela não esquentava e nada acontecia . Depois fui me acalmando e aceitando o cozimento lento . Colocava a mão no barro e sentia um borbulhar  interno  . A massa do lacre ressecou e fiquei com medo que estourasse. Aumentei um pouco nos pontos mais frágeis , umideci o lacre algumas vezes , e até a hora do almoço  nada escapou de dentro do meu caldeirão capixaba.
Eram  seis da tarde quando fomos almoçar e o Barreado já fazia parte da turma , mesmo sem saberem todo o seu significado para mim . Estavam todos ansiosos pelo resultado . E olha  que o Edy , um dos convidados , ƒaz um barreado maravilhoso .
Não estava ligando tanto para ter o resultado perfeito , pois sabia que este era o primeiro que eu fazia . Mas não queria decepcionar ninguém. O  vapor perfumado que saiu da panela assim que abri mostrava problemas , um pouco de acidez em excesso .  Depois de sentir o cheiro  pude olhar o resultado . O caldo estava muito claro , os tomates foram poucos e não estavam no ponto ? Experimentei um naco da carne ,  não desfiava como na aula . Controlei demais o calor, deveria ter tirado da chapa por algumas horas ?
Mas mesmo assim todos se serviram de barreado no fogão , comeram  com  farinha de mandioca e uma pimenta caseira muito perfumada e que pega também . Cheguei atéa escutar alguns Hums .
 Ás vezes parece que vivo um rascunho , sempre  três ou quatro tempos até que ache o resultado satisfatório . Para um perfeccionista sempre há o que melhorar . Um perfeccionista evoluído , como eu , aceita até escrever sobre seu erro . Brincadeiras de lado ,espero poder  fazer meu barreado mais vezes e depois da quarta ou quinta vez  chegar perto do barreado da Mara Salles .  
Qual será o símbolo de 2012 ?

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Rumo ao sul



Volto ao Chile . O vulcão cospe   cinzas ao sul . Eu fugi da nuvem cinzenta que pode ameaçar minha viagem .Evito um paraíso andino como Pucón ou Chillán . Escolho Santiago e Santa Cruz .
Meu corpo exala  cansaço . As jornadas de trabalho tem sido extensas. Estou sempre correndo de um lado para o outro . Olho para  o relógio em uma luta  constante contra os ponteiros , que  chegam a minha frente . Sempre estou  a meio caminho quando chega a hora .
Agora estou a meio caminho  e , num raro episódio ,  a hora ainda não chegou . Estou de férias . Curtas , é verdade , mas férias.
Da  primeira vez que estive em Santiago do  Chile ,  era inverno.  A foice  paraiva sobre minha cabeça  . Eu vivia sob a ameaça fria da morte . Eu tremia de frio e medo .Esqui em Vale Nevado . A altitude não me fazia bem .  A vida sem perspectivas não me fazia bem . E as montanhas nevadas formavam um vale deserto , sem vida , sem horizonte ,só gelo .
Hoje é  primavera , o sol brilha , as flores brotam . Escolhi horizontes no meu universo  . O sol nasce   redondo , apaixonado , pungente . Verdadeira bola de fogo. Não consigo dominar minha compulsão pela vida , pelo fazer , pelo realizar . Preciso sugar um pouco desta energia  vermelha , recarregar minhas reservas .
Curioso é que tenho sonhado  constantemente com mar e Netuno  e para as férias escolhi a montanha de Atlas . Prefiro a água , mas desafio o fogo. Primeiro vamos a Santa Cruz  visitar as vinícolas e as parreiras , ver os vales frutificando .
Ainda no freeshop namoro uma nikkon automática , X-tudo , full hd ,  16 mega pixels . As imagens tem me seduzido . Provavelmente  porque não tenho exercitado a imaginação  escrevendo e transformado em palavras as imagens que brotam do meu mar de letras onde  mora Netuno .
A inconsciência me sustenta como um pedaço de  ferro inerte boiando no gel viscoso que jorra do útero de Gaia . É  dos braços do meu netuno de letras , tridentes com pontas de tungstênio , que sismo em acordar  e dar cotidianamente  as costas ao inconsciente que  me  acolhe.  Não fosse assim ardilosa  a consciência ,  escondendo aquilo que não domina  . O   medo , a morte , a felicidade extrema  , o sol nascente , as uvas que florescem nos vales chilenos .
E  o vinho produzido dos frutos destes vales  me permitem acessar novamente a inconsciência e escrever . Finalmente volto a escrever .


.....................................................................................................




 A luz da lua cheia reflete no espelho do telescópio . Fere minha retina. Espada de  São Jorge fincada no meu coração  . A nossa  insignificância expressa no martírio  legendário . Na lua  nossa  imaginação se concretiza : mares , crateras e manchas .
Na segunda observação , vejo também Ganimedes , a lua de Júpiter . o planeta gasoso , 12 vezes o nosso tamanho . As manchas se perdem nos meus bastonetes danificados . Mas eu sei que estão lá . Minha pele fica crespa de emoção . Lembro do meu polioptyicon . Construía lunetas para observar os astros . Lia sobre astronomia  aos 12 . As imagens do espaço , estrelas , galáxias , ainda me emocionam.  Lembro de  observar a lua , tentar visualizar suas crateras .
Hoje elas  reaparecem enormes através do telescópio computadorizado da vinícola .  Localização e clima privilegiados . A observação do espaço fica favorecida no vale do Colchágua .
Aqui na terra preocupados com décimos de segundos , esquecemos que os astros que brilhan nas constelações longínquas talvez já não existam mais . A luz que observamos maravilhados percorre 4 milhões de anos luz vinda de algum ponto distante do universo . Chegou atrasada ?
Por isso talvez o frugal almoço a sombra do parreiral e da figueira repleta de frutos  foi  tão prazeroso . Desfrutar a tranquilidade deste vale  fértil capaz de produzir tantas delicias é , sem dúvida , um presente  . Rios subterrâneos ,  vinhas livres de pragas , o trabalho humano aliado a natureza é capaz de tamanhas maravilhas . Produções biodinâmicas , vinhos de equilíbrios perfeitos. Vinhas e pomares tão produtivos . A tranquilidade do lugar põe em cheque meu estilo de vida . O céu cheio de pontos brilhantes me lembra ,  não somos nada , um pingo de água num oceano de possibilidades . Um acaso , quase um erro de calculo .
A vida veio em um asteróide que colidiu com nosso planeta , explica o senhor no observatório das bodegas Santa Cruz . Bactérias que encontraram um mar quentinho , oxigenado graças a influência da nossa lua . Será a lua e a  imaginação uma coisa só ? Em última instância a vida não existiria se a lua não exercesse o seu fascínio sobre a terra ,  se seu campo gravitacional não possibilitasse o movimento dos mares . Talvez não existíssemos sem sonhar .
Vivemos em uma estreita crosta solida sobre um núcleo que esta em ebulição. Os vulcões  , os terremotos , os gêisers , todos sinais de um núcleo em ebulição . E isso o Chile nos lembra a cada segundo .


            ....................................................................................................................................


Santiago se mostra diferente . O hotel de um luxo duvidoso . Dourados , lobby fabuloso , elevadores panorâmicos , cascatas na piscina . Mas o quarto grande o serviço muito atencioso .
A primeira vista uma  cidade de primeiro mundo . Chegamos e saímos para um passeio a pé por perto mesmo . Erramos os caminhos . É tão difícil atravessar as auto estradas e pistas expressas . Mas no fim achamos uma varanda simpática . Comida simples . Chopp gelado . Férias de verdade . O papo rola , nossa intimidade parece sempre maior nas viagens .
O restaurante famoso  reservado para noite decepciona . Preços altos . A comida de Don Gaston nos parece carregada , pesada , sem o brilho que sabemos que poderia ter .
Aos poucos a cidade vai se mostrando . Vamos dançar . A boîte numa zona   central  , uma região decadente . Nos damos conta que este é um país conservador . Vítima da associação espúria entre militares de direita e de uma igreja católica que se aliou aos assassinos . Tudo para manter seu poder .
O Chile americanizado aparece em Santiago . Businesmen nos rodeiam no café da manha . A pobreza começa a dar suas caras .
 No passeio pela zona central depois de devoramos um centolla inteira , nos perdermos a caminho do cerro San Cristobal . Aos poucos tomamos contato com o Chile da população . A America latina aparece nos mínimos detalhes . No cerro o casal modesto veste suas filha s de jérsei cor de rosa e tiaras douradas . O passeio de domingo de suas Lupitas que eles exibem com orgulho .No mais shoppings , restaurantes médios , uma localizaçãoprivilegiada . Acho que o passado de ditadura , as cicatrizes  conservadoras  me assustam.
Necessito de um ambiente progressista de liberdade  E Oxalá o Chile consiga avançar com seu “ destape “ , romper o domínio da igreja católica e do exército e se expressar com todas as suas possibilidades . Afinal a paisagem deslumbrante merece uma sociedade mais livre . Mal posso aguardar minha quarta visita . Atacama ou Patagônia ?



sábado, 17 de dezembro de 2011

ONDE FOI PARAR O MEU PAPAI NOEL ?


Chego ao escritório cansado , vindo de mais  uma reunião  com um cliente  que precisa por a casa em ordem e não sabe onde seu problema começou .
Olho para a minha mesa e os papéis se acumulam. É fim de ano, época em que todos querem resolver os seus   problemas e os da humanidade em semanas . 
No topo de pilha vejo uma linda caixa  de bombons que ganhei de presente . Abro e pego um . Quando dou a primeira mordida, percebo um cabelo  grudado ao celofane da forminha do gianduia  . Olho novamente o cabelo . O fio é branco, meio comprido . Eu me conforto e  começo a delirar . Fecho os olhos . Levo a mão a testa . Acaricio minha cabeça e os poucos cabelos que sobram no topo . Fecho os olhos  
Rapidamente crio  duas explicações fantásticas . Ou o fio branco  é das barbas do papai Noel ,  ou do pescoço das renas  que  perderam seus pelos  afetadas pelo aquecimento global e pelo derretimento da camada de gelo do ártico  .
Não abro os olhos . 
Era tão bom acreditar em Papai Noel ! Tudo o que eu queria era que dezembro chegasse . Arrumávamos as malas e vínhamos para São Paulo  passar férias na casa da minha avó.  Víamos os primos , eu encontrava várias  pessoas distantes que amava . Não tinha a rotina do dia a dia . Brincávamos soltos no quintal com os cachorros  e nossos brinquedos . Aquele quintal e o salão de brinquedos eram nosso mundo . E sempre tínhamos festas com Papai Noel . Algumas  vezes na gráfica onde um tio trabalhava . Outras  no consulado onde meu avô fazia parte do departamento cultural .
O Natal era motivo de festa . Dia 24   montávamos a árvore e íamos dormir esperando que papai Noel passasse durante a noite . Dependendo do ano a árvore era mais rica e mais cheia de presentes . No dia 25 , almoço em família . Era a única oportunidade em que todos os primos se reuniam  . Enfim a família .
Abro os olhos , pois o  telefone toca. Era minha mãe avisando que todos haviam desistido  de ir a casa da minha cunhada no dia 24 e que prefiriam ir para o restaurante . Seria mais rápido e mais prático . Eu fico sem resposta  com o bombom e o fio de barba do Papai Noel ou o pelo da rena despelada  na minha mão . 
Olho para a tela do computador e a lista de 30 e-mails  para ser respondida. Um gerente de banco fica ligando insistentemente  no meu celular desesperado porque a conta do meu cliente está descoberta e a trasferência para pagar os salários não foi realizada .
papei-noel-renas-treno.gifSegurando o fio de cabelo branco ,  choro lembrando que quem se vestia de Papai Noel em todas sa festas era meu avô por causa de seus cabelos e bigodes brancos.   Pego um outro bombom  da mesma caixa e como  para ver se  a ansiedade passa. Desligo o telefone celular , desligo o computador e resolvo convidar mina equipe para almoçar no melhor restaurante do bairro para comemorar o  fim do ano . Meu papai Noel já não existe mais . Os Natais perderam seu sentido . Mas eu tinha que tentar resgatar a felicidade dos Natais e férias de fim de ano da minha infância .

domingo, 10 de abril de 2011

Shanti !!!


Lá se vão quase dois meses que postei meu ultimo texto .A última vez foi antes de embarcar para a Índia e Londres .
Viagem surpresa,  sem muita expectativa . Muitos me perguntaram o que estava indo fazer . Eu mesmo não sabia ao certo . Resolvi arriscar uma coisa diferente para começar 2011.
Uma viagem espiritual ?
Retiro ?
Visitas a ashraans ?
Passeio ?



Só sabia que o destino era Bangalore e o motivo aparente participar de um conclave ( o que e concleve mesmo ?) chamado DREAM:IN. Como o convite vinha de fonte confiável e fortemente recomendado , aceitei prontamente . Acho que neste momento minha viagem pessoal começou.
Primeiro enfrentei os medos normais : Vacinas , comida exótica, água contaminada , viagem longa , me ausentar do escritório .
Mas rapidamente arrumei as coisas e duas semanas depois me atirei na aventura transcendental .
Mas nada , nada de espiritual . Funcionou muito mais como um choque de realidade , uma injeção de esperança .
Encontrei um pais em transformação  com baixo grau de desenvolvimento , mas mudando muito rapidamente . Pessoas preparadas e ansiosas por realizar . Pouco receio . Eles tem a certeza que tudo vai dar certo .
Para empreendedores como eu , nada mais útil.
Não existe olhar para traz  -  me disse um executivo assim que cheguei lá .
Há tanto por fazer que é melhor sair fazendo a  achar motivos impeditivos .
Os rumos se corrigem no processo .
O uso intensivo de tecnologia da informação e a possibilidade de pensar soluções inovadoras é sempre o mote das transformações .
Impressionante também  o respeito pela próprio País , cultura , tradição , religião . O meio ambiente fica de lado  , é verdade .
Não adianta trazer modelos de fora - eles dizem . A India é um pais a parte, costumam repetir como um mantra .
Ao contrário do que muitos me falaram , não me impressionou a pobreza , mas a possibilidade de melhora e a confiança .
Confiança que me contaminou .
Voltei esperançoso , querendo realizar coisas novas .
Começo um novo momento profissional . Consultoria de gestão a todo vapor, .projetos novos e desafiadores , reforma na rotisserie , novos papéis em scripts conhecidos , um escritório com uma equipe bacana e afinada . Cheio de possibilidades e querendo realizar .
Olhar para traz só para agradecer .
Namasté Índia !

IN MEMORIAN

Quando comecei o blog um amigo meu me incentivou muito .
Na época ele me  disse :
- No início você vai escrever. muito , depois vai dar um tempo e ai retoma com uma constância alimentada com disciplina . A empolgação termina . Mas o prazer não .!
Eu acreditei .
Fiquei dois meses sem escrever  .
Não quero esquecer o que ele me disse . Vou retomar com disciplina .
A emplgação do meu amigo acabou na semana passada e ele não teve a disciplina necessária para enfrentar o dia a dia da vida .
Ele, o Alê ,  vai estar sempre presente nos espaços vazios dos meus teextos .